Cenário fiscal desafiador e dependência de repasses externos marcam o planejamento orçamentário do município paranaense
A dependência histórica de receitas transferidas pelo Estado e pela União torna cada vez mais complexo o cenário fiscal de Araucária para o planejamento do orçamento dos próximos anos. Considerada uma das cidades mais ricas do Paraná, o município enfrenta atualmente o desafio de equilibrar contas públicas altamente comprometidas com a manutenção de serviços essenciais oferecidos à população.
Sempre que oscilações na economia nacional e estadual influenciam a arrecadação, a administração municipal lida com um grande desafio financeiro. Em Araucária, essa equação ganha contornos ainda mais complexos devido ao fato de que boa parte dos recursos que entram nos cofres públicos provém de transferências externas, ou seja, impostos administrados pelo Governo Federal e pelo Governo do Estado do Paraná, atuando a Prefeitura como receptora desses valores.
Essa realidade econômica foi detalhada pela Secretaria Municipal de Finanças (SMFI) durante a apresentação da proposta de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).
Queda contínua nas principais fontes de receita municipal
Os números apresentados revelam que as receitas que abastecem Araucária registram queda contínua desde 2024. A principal delas é o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que representa praticamente 50% do total de recursos que alimentam os cofres da Prefeitura.
Em 2024, o Estado transferiu R$ 685,5 milhões à cidade a título de cotas desse imposto. No ano seguinte, o montante recuou para R$ 671,1 milhões e, conforme o comportamento dos repasses observados ao longo do primeiro semestre, a expectativa é que o valor feche em torno de R$ 625 milhões, evidenciando uma retração acentuada.
Uma tendência semelhante ocorre com o Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA). As transferências caíram de forma expressiva após ajustes nas alíquotas aplicadas pelo Governo do Estado. Enquanto no ano passado o tributo rendeu quase R$ 45 milhões aos cofres municipais, a projeção indica uma retração significativa para a faixa de R$ 30 milhões.
Outra fonte de receita de grande relevância para as finanças locais são os royalties recebidos em razão do refino de petróleo. Em 2024, ingressaram nas contas da Prefeitura R$ 78,8 milhões, valor que diminuiu para R$ 65,5 milhões no ano seguinte, com projeções ainda menores para os próximos exercícios. A flutuação está atrelada às oscilações do mercado internacional de petróleo e ao fato de que parte dos combustíveis distribuídos no município passou a vir de outros locais, reduzindo o volume processado na refinaria instalada na região.
Ajustes no orçamento e rigidez nos gastos públicos
Diante desse panorama, a Secretaria Municipal de Finanças precisou revisar as projeções financeiras. A estimativa inicial de arrecadação foi reajustada para baixo, exigindo cautela na gestão dos recursos públicos. Embora a previsão orçamentária para o próximo ciclo aponte cifras bilionárias, os técnicos classificam a proposta como realista, porém cautelosa diante da volatilidade do cenário externo.
Especialistas apontam que, apesar de reduções percentuais expressivas na arrecadação, cortar despesas em uma estrutura do porte de Araucária não é uma tarefa simples. O município mantém uma ampla rede de atendimento à população, o que gera compromissos financeiros de natureza permanente e com crescimento vegetativo contínuo.
Um dos principais pesos no orçamento é a folha de pagamento do funcionalismo público, que consome aproximadamente metade da receita corrente líquida da cidade. O custo com pessoal possui um crescimento anual estimado devido a progressões de carreira, como triênios e quinquênios, além da necessidade de recomposição salarial obrigatória, fazendo com que a despesa aumente mesmo quando a arrecadação diminui.
Manutenção de serviços contínuos e obrigações financeiras
O impacto finance também recai sobre diversos serviços prestados de forma indireta, como a coleta de resíduos sólidos, obras terceirizadas e a manutenção de equipamentos nas áreas de educação, saúde e assistência social, incluindo o custeio do Hospital Municipal de Araucária. Todos esses contratos envolvem o pagamento de trabalhadores que recebem reajustes periódicos.
Outro elemento de destaque nas contas municipais é o sistema de transporte coletivo, que opera com tarifa universalizada e forte subsídio por parte do poder público, garantindo acessibilidade à população, mas exigindo aportes financeiros relevantes do erário.
Além disso, a administração municipal precisa destinar recursos mensais expressivos para garantir a sustentabilidade futura do Fundo de Previdência Municipal de Araucária (FPMA), assegurando o pagamento de aposentadorias aos servidores. O orçamento também é onerado pelo pagamento mensal de empréstimos e financiamentos de longo prazo firmados em gestões anteriores com instituições financeiras.
Com a conclusão da audiência pública e a apresentação formal da proposta de LDO, o texto foi encaminhado à Câmara de Vereadores. Caberá aos parlamentares analisar o projeto nas comissões permanentes e debatê-lo em plenário antes da aprovação definitiva.



