A cada quatro anos, o Brasil volta suas atenções para as urnas para discutir os rumos da economia, as prioridades do poder público e os caminhos que o país deverá seguir. No entanto, o mercado imobiliário possui uma particularidade fundamental: enquanto os ciclos políticos são medidos em mandatos de curta duração, os investimentos e planejamentos do setor são concebidos para durar décadas.
Um novo empreendimento imobiliário começa a tomar forma muito antes da execução da primeira obra. O processo envolve a aquisição estratégica de terrenos, o desenvolvimento de estudos complexos de viabilidade, a obtenção de aprovações legais, a estruturação de financiamentos e a tomada de decisões baseadas em projeções de longo prazo. Da concepção inicial até a entrega das chaves, um único projeto pode atravessar diferentes administrações públicas. Da mesma forma, o financiamento de longo prazo assumido por uma família pode acompanhá-la por 20 ou 30 anos.
É justamente por essa razão que os pleitos eleitorais importam para o setor, independentemente de quem seja o vencedor. Embora pareça distante da realidade de um canteiro de obras, o cenário político e econômico impacta diretamente o mercado imobiliário por meio de diferentes frentes.
O reflexo dos juros e do custo do dinheiro
O primeiro fator de influência é o custo do dinheiro. A taxa básica de juros, a Selic, iniciou o ano em 15% ao ano e apresentou recuo para 13,75% em setembro. A trajetória dessa taxa depende diretamente do controle da inflação e das condições macroeconômicas, mas também sofre forte influência das expectativas em torno do equilíbrio das contas públicas. Quando a percepção de risco fiscal aumenta, os juros de longo prazo tendem a reagir, alterando diretamente as condições de financiamento para a compra de moradias.
Para uma família, oscilações na taxa de juros podem ser determinantes para definir se a parcela mensal cabe ou não no orçamento doméstico. Para uma incorporadora, o custo do capital interfere de maneira direta na viabilidade econômica de novos projetos. Em ambas as situações, as decisões financeiras tomadas no presente geram repercussões por muitos anos.
Disponibilidade de crédito e políticas habitacionais
O segundo canal de impacto é a disponibilidade de crédito. O financiamento imobiliário no Brasil historicamente depende de fontes tradicionais como a caderneta de poupança e o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), além de normativas que regulam a aplicação desses recursos. Mesmo em um ambiente de juros elevados, a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) revisou sua projeção de crescimento para o crédito imobiliário, passando de 16% para 25%. A demanda habitacional permanece aquecida, mas a capacidade de concretizá-la depende diretamente das condições oferecidas ao consumidor final.
O terceiro aspecto envolve as políticas públicas voltadas para a habitação. Programas federais, como o Minha Casa, Minha Vida — que já passou por outras nomenclaturas ao longo dos anos —, demonstram como as diretrizes de acesso à moradia podem ser modificadas a cada gestão governamental. Independentemente do nome adotado, tais programas desempenham um papel central na produção de novas unidades e na facilitação da casa própria. Faixas de renda, subsídios, limites de financiamento e o volume de recursos disponíveis definem quais famílias terão acesso ao mercado e quais empreendimentos conseguirão sair do papel. No âmbito estadual, iniciativas como o programa Casa Fácil também cumprem esse papel de complementaridade no apoio à habitação.
Embora seja natural e necessário que as políticas públicas passem por avaliações e aprimoramentos contínuos, o fator primordial para o setor é a garantia de previsibilidade e segurança jurídica. Dessa forma, evita-se que eventuais transições governamentais comprometam o planejamento de longo prazo das famílias e os investimentos corporativos.
Comportamento empresarial e impacto regional
O quarto elemento de influência é o comportamento estratégico das próprias empresas do setor. Diante de cenários econômicos marcados por incertezas, os investimentos podem ser reavaliados, os lançamentos imobiliários podem ser antecipados ou adiados, e novos projetos passam a ser submetidos a critérios de seleção mais conservadores. Essas decisões refletem diretamente na oferta de imóveis disponíveis, na geração de postos de trabalho e no ritmo de desenvolvimento urbano dos municípios.
Os reflexos dessas oscilações, contudo, não atingem todos os segmentos da mesma forma. Empreendimentos voltados para o alto padrão, que costumam apresentar menor dependência de financiamentos bancários, demonstram maior resiliência diante das variações do crédito. Por sua vez, o segmento econômico conta com o suporte de mecanismos habitacionais subsidiados. O maior ponto de atenção recae sobre as famílias de renda intermediária, que dependem de financiamento bancário, mas não possuem acesso direto a subsídios estatais ou federais, sentindo de forma mais intensa as variações nas regras de compra.
Apesar de todas as variáveis econômicas e políticas, existe um dado estrutural que permanece inalterado: a necessidade básica de moradia. Conforme dados da Fundação João Pinheiro, o déficit habitacional brasileiro registrava aproximadamente 5,8 milhões de moradias. Essa demanda persiste independentemente de calendários eleitorais. O que realmente muda é a capacidade e a velocidade com que o país consegue responder a essa necessidade.
Em cidades como Araucária, essa dinâmica se manifesta de maneira clara. As diretrizes macroeconômicas de financiamento e habitação formuladas nas esferas federal e estadual chegam de forma direta aos cidadãos e empresas locais. Paralelamente, o desenvolvimento urbano do município exige planejamento de infraestrutura, mobilidade eficiente e regras claras para o licenciamento de novos projetos, competências atribuídas à administração municipal.
O planejamento de uma cidade não pode se limitar ao horizonte da próxima eleição. O crescimento urbano sustentável precisa contemplar as necessidades das próximas décadas, assegurando estabilidade econômica, segurança jurídica e condições adequadas para que o setor produtivo continue investindo e gerando valor para a sociedade.


